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Importa alcançar a outra margem, não a forma da ponte

15 set 2016 Notícias

Importa alcançar a outra margem, não a forma da ponte

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Importa alcançar a outra margem, não a forma da ponte

Artigo de opinião de David Bota – Designer e Professor Universitário

Todos estamos cientes da importância do posicionamento e diferenciação da nossa oferta para o êxito das nossas empresas, para a criação de riqueza, emprego e bem-estar. Todos sabemos a importância do valor acrescentado da nossa oferta, em mercados cada vez mais globais, cada vez mais maduros e saturados, sofisticados e exigentes, em sociedades denominadas da informação, i.e., economias post-subsistência cada vez mais dependentes da informação, do seu valor e do seu consumo.

Sabemos que o design pode ser um valor fundamental neste processo, mas nutrimos possivelmente um ateísmo, algo justificado, em relação aos milagres do design, provavelmente fruto de experiências pessoais e de algum investimento incipiente e pouco estratégico, o mesmo ateísmo que nutrimos do mesmo modo pelas teorias cozinhadas, pelas universidades, longe das vicissitudes do mundo real.

Já todos discutimos certamente o valor do design. Numa situação social com colegas, parceiros ou concorrentes, depois de uma conferência, inspirados por uma feira, uma apresentação, ou pela leitura de um artigo de uma revista que, apesar de tudo, seguimos assinando. Evidentemente, não temos nada contra a criatividade senão, pelo contrário, nutrimos um saudável respeito e inclusive nos maravilhamos com essas mentes dedicadas. Mas parece que temos objectivos e formas de pensar diferentes, que a vida real, as preocupações e objectivos, são diferentes.

Enquanto designer e docente, sei que a criatividade é fundamental. Mas é apenas um meio para alcançar um objectivo, que é a inovação, a criação de novos produtos ou serviços que resultem na criação de riqueza, emprego, bem-estar, um meio como o é uma ponte, para chegar ao outro lado. Esta é a missão do design. Não existem antecedentes de economias com um desenvolvimento sustentável cimentado unicamente no turismo, mas a indústria foi e continua sendo um motor indispensável de progresso para as economias desenvolvidas. Em mercados globalizados, a tarefa que espera o nosso sector industrial nacional revela-se tão necessária quanto ambiciosa e requer, pelo menos, uma correcção de mentalidades.

Já todos discutimos, numa situação social com colegas, parceiros ou concorrentes, que o nosso país não tem expressão geográfica ou demográfica suficiente para sustentar um sector industrial moderno baixo em todos os seus parâmetros. Mas alguma vez imaginamos a economia suíça, com uma população inferior à portuguesa mas entre as 25 maiores economias do mundo e cujo sector industrial emprega mais de 40% da população (comparando com os 24% em Portugal [2]), sustentar um sector secundário de referência, por exemplo na relojoaria ou no sector têxtil, com um consumo maioritariamente interno? Com certeza que não.

Por outro lado, já todos igualmente discutimos, com os mesmos – ou outros colegas, parceiros ou concorrentes, que o nosso país tem uma estrutura industrial inadequada, baseada em grande parte em Empresas Familiares. Mas alguma vez imaginamos a economia italiana, com cerca de 70% de empresas familiares, à semelhança do que sucede em Portugal [3], responsáveis por 50% do emprego em empresas com mais de 50 empregados e por mais de 90% nas empresas de menor dimensão [4] – ou mesmo os nossos vizinhos espanhóis, cujas empresas familiares representam mais de 70% do total, e cerca de 60%, tanto de facturação como da exportação [5], sustentar os seus respectivos sectores secundários com um consumo maioritariamente interno?

Seguramente, não. No entanto, parece ser esta a solução que encontramos para a nossa economia nacional…

Segundo dados disponíveis em vários meios de comunicação social [6] em 2014, mais de 40% das vendas portuguesas a outros países foram realizadas por cerca de 1% das nossas empresas nacionais, enquanto mais de 60% das empresas portuguesas foram responsáveis por menos de 10% do valor vendido ao estrangeiro. Constituídas por entre 0-9 trabalhadores, estes 60% das empresas portuguesas evidenciaram frequentemente problemas estruturais de escala, de competitividade, posicionamento e diferenciação da oferta, e consequentemente de financiamento ou investimento – com óbvias repercussões na sua capacidade de investigação, desenvolvimento e inovação (I+D+i).

Se queremos transformar a nossa indústria numa indústria exportadora e competitiva, em mercados cada vez mais globais e exigentes, torna-se evidente a importância estratégica da incorporação e rentabilização de I+D+i nas empresas portuguesas para a criação de maior valor acrescentado, uma das comprovadas lacunas da nossa economia [7] sobretudo num contexto europeu e global tão incerto como o actual. A Universidade está pronta a contribuir com o conhecimento e a investigação produzidos no seu interior, pronta a compartilhar a responsabilidade e a colaborar para essa criação de valor acrescentado, e pode ser um parceiro-chave para este processo de reindustrialização, absolutamente fundamental para os países do sul de Europa [8]. Também o design pode contribuir para definir estrategicamente a natureza e características da nossa oferta com vista à sua diferenciação e correcto posicionamento, à definição e desenvolvimento de produtos, serviços e experiencias, comunicação, espaços comerciais ou expositivos, etc, correctamente sintonizados com essa diferenciação e posicionamento.

Mas para este processo encontrar a sua necessária expressão e repercussão, é necessário construir pontes, é necessário construir um diálogo entre indústria, design e universidade, de modo a criar as sinergias transversais que a indústria do nosso País necessita para encontrar a sua merecida expressão no exterior. A indústria constituiu sempre a dimensão produtiva da cultura, baseada no engenho, na invenção – e não na especulação – e sempre aglutinou intelectuais, designers, arquitectos, ao redor do seu papel na sociedade.

Necessitamos que o continue sendo.

[1] “No one should be interested in the design of bridges – they should be concerned with how to get to the other side” Cedric Price, “On safety pins and other magnificent designs”, Pegasus, primavera 1972; cit.in: Cedric Price; The square book, Wiley-Academy, Chichester 2003
[2] PriceWaterhouseCoopers (2013), Principais desafios da indústria em Portugal – 2013; Uma abordagem coerente para a dinamização do sector, http://www.pwc.pt/pt/publicacoes/imagens/2013/pwc_principais_desafios_industria.pdf
[3] http://www.empresasfamiliares.pt
[4] CORBETTA, Guido & MONTEMERLO, Daniela (1999) “Ownership, Governance, and Management Issues in Small and Medium Size Family Businesses: A Comparison of Italy and the United States”, Family Business Review, 12, 4, pp.361-374.
[5] GALLO, Miguel Ángel (1995) Empresa Familiar – Texto y Casos, Barcelona, Praxis.
[6] Instituto Nacional de Estatística (23 Outubro 2014). cit.por: Nuno Aguiar (23 Outubro 2014) “Cinco empresas são responsáveis por um quinto das exportações portuguesas”, Jornal de Negócios, http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/cinco_empresas_sao_responsaveis_um_quinto_das_exportacoes_portuguesas.html
[7] PriceWaterhouseCoopers (2013), Principais desafios da indústria em Portugal – 2013; Uma abordagem coerente para a dinamização do sector. Disponível em http://www.pwc.pt/pt/publicacoes/imagens/2013/pwc_principais_desafios_industria.pdf
[8] A importância da reindustrialização do sul de Europa constitui hoje uma das prioridades comunitárias, apontada pelo comissário europeu para a Indústria e Empreendedorismo, António Tajani no IX Encontro COTEC Europa (2014) http://www.cotecportugal.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=2565

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